Uma Passagem pela Brotero
É verdade, como o tempo passa! Já lá vão 48 anos que eu entrei na Brotero. Recordo com saudade alguns momentos ali vividos como se fossem hoje!
A minha Escola Brotero, como sempre disse, digo e sempre direi.
Escola de virtudes, que com os seus defeitos e qualidades lançou para o mundo do trabalho, público, privado e empresarial, grandes homens e mulheres deste país.
É frequente encontrarmos nos mais diversos campos e ramos profissionais, e ao longo de todo o país, aqueles que foram alunos da Brotero. Até mesmo em cargos de Estado.
Eu sempre disse, com muito orgulho, que foi muito bom ter passado pela Escola Brotero. Não só pelos tempos passados por lá, como depois mais tarde, na minha continuação de estudos, e depois até mesmo na minha vida profissional.
Foi possível comprovar, e com toda a propriedade posso dizer, que em estudos seguintes, tinham melhor aptidão e destreza, aqueles que vinham de escolas técnicas, do que aqueles que iam dos ensinos liceais, muito teóricos, mas pouco práticos.
Eram os “estudos” daquele tempo, mas que produziam muita gente técnica, que agora, pelas alterações introduzidas não temos, mas necessitamos. A existirem esses técnicos, muitos são autodidactas e sem preparação suficiente para se empenharem e cumprirem com o trabalho que estão a produzir.
Bem, mas decorria o ano de 1962 e em Outubro lá fui para a Brotero. Foi o meu 1º ano. Nesses anos era necessário fazer exame de admissão e ter nota positiva para entrar.
Na época, era uma escola novinha com dois ou três anos, edificada como hoje a conhecemos nas actuais instalações, pois, devido ao excesso de população escolar, a Brotero teve de abandonar as anteriores instalações no centro da cidade.
Verificamos que no momento está a sofrer grandes obras de beneficiação e melhoria com algumas alterações ao projecto inicial.
Verificamos também que as árvores que circundavam o edifício, recentemente decepadas com as obras de beneficiação, eram árvores já de algum porte, enquanto naquela data eram árvores pequenas com pouco mais de metro e meio de altura!
Também podemos dizer que a escola, inicialmente, foi projectada para cerca de 1600 alunos, e rapidamente este número foi ultrapassado, chegando a ter, no meu tempo, anos 64, 65 e 66 um número superior aos 4000 alunos, sendo necessário instalar alguns pavilhões pré-fabricados com salas de aula.
Essa expansão ficou a dever-se ao facto de a escola ser procurada pelo brilho do seu bom nome, facto esse também acompanhado pela melhoria de vida das populações.
Naquele tempo, ao contrário do que observamos agora, tudo à sua volta era campo de silveiras, terra e ervas, com mais ou menos peladas, onde os seus alunos faziam as suas brincadeiras.
Era frequente as crianças aproveitarem os intervalos, os “feriados” e a hora de almoço e serem vistas a fazer os mais diversos jogos: o futebol, a cabra-cega, a estaca, o prego… Bem, as meninas por vezes também jogavam ao “mata”.
Não podemos esquecer que naquele tempo, na escola, havia separação entre meninos e meninas. E corredores onde tivessem que se cruzar, lá estava o olhar atento do Sr. Contínuo, figura a quem todos tinham muito respeito!
Só para alunos dos últimos anos e principalmente no curso do “Comércio” é que havia as turmas mistas. Nos intervalos, de novo, separavam-se os meninos e as meninas para recreios diferentes.
Não quer dizer que já lá não surgissem uns ”namoricos”, mas para rapazes e raparigas se encontrarem ou estarem próximo, só fora das instalações da Escola.
Eram normais e frequentes os chamados ”inquéritos”. No fundo, eram um simples cadernos de folhas A5, elaborados na maioria das vezes por meninas, que com uma dúzia ou pouco mais de perguntas, tinham por intenção saber “quem gostava ou simpatizava com quem”.
Foi assim que nasceram alguns lindos casamentos!
Bem, chegado à Escola Brotero, foi como em qualquer parte, os momentos de adaptação. Encontrei um ou outro amigo e vizinho, mas a grande maioria era gente nova, que não sendo só residentes da cidade, também chegavam dos arredores e das localidades à volta. Nesse tempo chegavam à Brotero alunos de Penacova, Poiares, Lousã, Miranda e Serpins, de S. Martinho, Ameal, Pereira, Santo Varão e Formoselha, de Montemor, Adémia, Souselas, Pampilhosa e Mealhada.
A integração era feita, sem serem precisos os papás e dia após dia ali eram feitos conhecimentos e grandes amizades. Os novos companheiros, em alguns casos, acompanhavam-nos até finalizar o curso.
Poderei dizer que nunca fui um aluno brilhante, de notas excepcionais, mas com o conhecimento e o saber suficiente para ir passando todos os anos.
Cumpria a exigência da época, esforçando-me mais aqui ou ali para ter sempre notas para passar.
As notas 10, 11 ou 12 eram notas boas para quem passava todos os anos. Quem é que se aventurava a ter 13, 14 ou 15 para prejudicar outras notas? A nota 15 era muito rara, e era de imediato distinguido quem a conseguisse.
Era a época que tínhamos, nada como agora. De certeza que os alunos de então seriam excelentes nos tempos actuais, dado os inflacionados valores que agora são atribuídos.
Fui Finalista no ano lectivo de 66/67 do curso de Formação de Montador Electricista, em que frequentei nos dois primeiros anos 62/63 e 63/64 o chamado Ciclo Preparatório, e nos três anos seguintes o curso de Electricista.
Com todo o mérito, podemos dizer: Sim, Ciclo Preparatório para a Vida, pois que esta etapa dava para seguir qualquer curso, no tempo era o aprofundar, o solidificar e aumentar de conhecimentos já antes obtidos na escola primária. Era dado a conhecer, e sem grandes dificuldades, um conhecimento geral que preparava bem os alunos.
Continuei depois por três anos na escola da electricidade (assim se chamava), onde adquiri conhecimentos da especialidade.
Será importante referir que dada a sua qualidade, os conhecimentos adquiridos na Brotero eram muito reconhecidos pelos diferentes locais por onde passávamos.
Era normal uma vasta quantidade de ex-alunos ingressarem rapidamente nas diferentes boas ”casas” desta cidade.
Em Julho de 1968 conclui o meu curso. Fazia parte do currículo, após o ultimo ano, efectuar um estágio no mínimo de seis meses, numa empresa da especialidade, elaborar um relatório sobre o trabalho desenvolvido na empresa, e finalizar com um exame de aptidão profissional, normalmente com a duração de quatro dias. Posso dizer que tinha terminado ali e com êxito a minha formação e estava preparado para o mercado de trabalho que consegui na época sem dificuldades.
Posso ainda mencionar que fiz parte da primeira onda de finalistas mais novinhos da Brotero, pois que até aquela data era normal os alunos finalistas terem mais idade, 18, 19 e 20 anos, enquanto que eu e outros companheiros chegámos “lá” com 15 aninhos – nesse tempo não era considerado trabalho infantil.
De certeza que todos os da minha geração têm belas histórias para contar, tantas quantos os dias que por lá passámos. Não que a Escola Brotero fosse uma escola de ficção teatral, mas sim pelo empenhamento, vivência e alegria que dávamos aos nossos dias.
Entre muitas e muitas histórias que poderia contar, vou aqui deixar duas passagens que recordo ainda com saudade, vaidade e felicidade.
Naquele tempo, no meu 3º ano, em 64/65, existia um Professor, do qual não vou dizer o nome, com a alcunha de “o papa cigarros”, devido ao enorme número de cigarros que consumia. Era um professor que, por ter avançada idade, já via e ouvia muito mal.
Bem, mas o bom do professor, apesar de ser assim, pela sua insistência e teimosia, levava a que quem quisesse aprender, ficasse mesmo a saber.
Era aquele professor que dizia sempre: “olha, meu filho, a força é má”.
Às vezes também comentava que tinha tido um professor de Física que, no seu compêndio, na parte do Calor tinha indicado “O Movimento produz calor” com a anotação manuscrita “excepto no caldo das nabicinhas”.
Então, certo dia, o bom do professor, ao iniciar a aula, de porta fechada, começou a escrever o sumário, no livro do ponto. Com os olhos bem próximos do livro, ouviu que alguém fez barulho e perguntou: – “Quem fez barulho”?
Silêncio sacramental.
- “Bem, ninguém se acusa, a fila da parede toda para a rua”. – Disse o professor.
Nessa fila estava eu incluído. Mais ou menos apressados, os meus colegas foram saindo, ficando eu, propositadamente, para último.
E quando ia para sair disse: – “Stôr” não há direito! Os outros é que fazem barulho, e eu é que vou pagar.
O bom do professor olhou-me e disse: – “Anda cá, meu filho, não fizeste barulho, então vai para o teu lugar e deixa ir os teus colegas”.
Espertinho eu, não?!
Bem, e assim fiquei na aula que, por sinal, era de revisão da matéria e preparação para um exercício (antigo nome para teste).
Será ainda bom salientar que naquele tempo quem queria estudar evitava as faltas, uma ida para a rua era uma falta, e que se “chumbava” por faltas.
Tenho ainda para contar outro episódio, já no meu 5ºano, o ano de finalista, em 66/67, quando eu tinha 15 aninhos.
Era normal nas aulas de oficinas, que eram de quatro horas, haver intervalo à segunda hora, e então os alunos vinham para o recreio vestidos com o fato de trabalho, o “fato-macaco”.
Havia também por costume, de longe em longe, os alunos assim vestidos irem ao “pau da bandeira”.
Ora, um belo dia, como tantos outros, viemos para o recreio.
Entenderam os meus colegas “os mais velhos” que tinha chegado a minha vez e, sem mas, nem meio mas, também acabei pendurado pelo fato-macaco no ferro que segura os fios do pau da bandeira, aquele que estava ao lado dos ginásios, voltado para o recreio grande. Voltado para o grande espectáculo! E assim pendurado, por muito que me movimentasse, não conseguia libertar-me, até que, depois de muito “espernear”, o fato-macaco cedeu, rasgou-se e eu bati com o corpo no chão, servindo de enorme risada para os assistentes.
Assim pude retirar-me da posição incómoda em que me encontrava. Fiquei aborrecido e “chateado”, mas no outro dia já não era nada e estava de novo a viver outras tantas brincadeiras que no tempo tanto amávamos.
Considero muito proveitosa a minha passagem pela escola Brotero.
Mesmo de tenra idade, tínhamos plena consciência de que tínhamos adquirido conhecimentos, maturidade e responsabilidade que mais tarde eram reconhecidos em bons locais de trabalho.
A. Flórido
Recolha da responsabilidade das professoras Graça Alves (actual professora da escola) e Celeste Raimundo (professora aposentada).
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